“Construir um aeroporto inteligente não é tarefa fácil”

30 de janeiro de 2014

Confira entrevista exclusiva do especialista em logística aeroportuária, Carlos Grotta.

O Brasil pouco ou nada avançou em projetos de infraestrutura aeroportuária nas duas últimas décadas, falta pessoal suficiente com “expertise” necessária para atender uma tarefa de vulto como esta. A frase contundente é de um dos maiores especialistas em logística aeroportuária do País. O nome dele é Dr. Carlos Alberto Diniz Grotta (foto), professor na Faculdade de Tecnologia (FATEC-Guarulhos) nas disciplinas de transporte aéreo e sistemas aeroportuários.
Formado em Engenharia Civil, Física, Geografia e Direito, Grotta, como é mais conhecido, desenvolveu seu mestrado e doutorado especificamente sobre transporte coletivo urbano.
Em sua tese de doutorado, defendida em 2005, o professor apontou a necessidade de mudança no padrão de atendimento da rede de transporte público centro-periferia para um modelo em grade, que é similar aos empregados pelas redes de metrô do mundo inteiro. “O problema do transporte urbano, como de muitos outros serviços públicos, aliás, se deve mais a uma nova governança política. E, para isto, a população é o único instrumento que pode exigi-la.  Os protestos de junho de 2013 ascenderam as esperanças de mudança”, conta.
Em entrevista à Revista Embarque,  Grotta fala sobre os conceitos de aeroporto inteligente, as mudanças que estão acontecendo no Aeroporto de Guarulhos, considerado o maior complexo aeroportuário do País, e o futuro dele em 2032.
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Embarque: O que é fundamental para ser um Aeroporto Inteligente?

Carlos Grotta: O aeroporto inteligente é aquele em que todas as interfaces aeroportuárias dialogam entre si, na busca de solucionar    problemas comuns dos atores (quais sejam: o  aeroporto, as companhias aéreas, as empresas terceirizadas e os usuários) que integram a mesma operação logística, que no aeroporto se resume ao embarque e desembarque de carga e pessoas. O aeroporto de Berlim- Brandenburgo é um exemplo. Há quase dois anos tem sua inauguração protelada para atender as exigentes normas de segurança para este tipo de atividade e pelos altos níveis de qualidade requerida pela indústria alemã, que busca, neste aeroporto, integrar todas as interfaces funcionais de sua operação.
O caminho para se chegar a este nível de integração é longo, e depende do   interesse de todos, o que nem sempre se dá num mesmo grau de interesse por parte dos envolvidos na atividade.

Embarque: Com os investimentos anunciados pelo GRU Airport, o senhor acredita que    agora ele está  se preparando para atender a grande demanda de passageiros  até a Copa?

Grotta: Desenvolver o projeto de um aeroporto moderno, sustentável e inteligente, não é tarefa fácil, pois são inumeráveis as empresas que devem participar conjuntamente para decidir    elementos de projeto, sem contar toda a cadeia de suprimento logístico para tal tipo de obra. Além disto, o país pouco ou nada avançou em projetos deste tipo nas duas últimas décadas, o que implica dizer que não temos pessoal suficiente com “expertise” necessária para   atender uma tarefa de vulto como esta. No entanto, as obras estão sendo feitas, o que é um importante e imenso passo para destravar os gargalos existentes e, se a demanda continuar avançando em níveis mais lentos, como o     registrado no ano de 2013, poderemos passar pela Copa com problemas como se fosse apenas uma “marolinha”. O problema, a meu ver, pode se agravar se o nível de segurança exigida for aumentado. Isto sim, implicaria na demora de embarque e desembarque, com a consequente piora da qualidade de atendimento e recepção aos passageiros.

Embarque: Quais são os principais gargalos do Aeroporto e como solucioná-los?

Grotta: Os principais são os de infraestrutura. Até então, todas as áreas se encontram congestionadas, dos saguões de check-in às áreas de embarque, de recepção de bagagens, de estacionamento das aeronaves, de armazenagem de carga, de verificação de raio-X, da polícia federal, e por aí vaí… Neste aspecto, a concessão parece estar focando na solução deste problema da infraestrutura, mas que não se resolve de uma hora para outra.
Porém, também vejo, num futuro próximo, que o gargalo do aeroporto de Guarulhos jaz fortemente nas limitações de seu crescimento, uma vez que a própria concessão depende disto. A empresa veio bem no sentido de resolver os problemas atuais e prementes.

Embarque: O senhor acredita que o uso do bioquerosene será eficaz para a diminuição de gases poluentes pelas companhias aéreas?

Grotta: Este não é o único caminho para a redução. Aviões modernos, estruturalmente mais leves e de melhor aerodinâmica, têm mostrado que são uma boa alternativa para a redução do consumo de combustíveis fósseis, bem como a melhoria na  tecnologia empregada nas turbinas, aumentando-lhes significativamente sua eficiência. Hoje, com o emprego de aviões maiores e onde está presente toda esta moderna tecnologia, consegue-se reduzir a pegada ecológica de um passageiro para algo em torno de até 30%, mas que no cômputo geral, é elevado, haja vista que uma viagem aérea pressupõe milhares de quilômetros voados, ao passo que uma viagem de ônibus ou carro, se limita, na maior parte, a apenas algumas centenas de quilômetros.

Embarque: Como o senhor imagina o Aeroporto de Guarulhos em 2032?

Grotta:  Os problemas irão surgir para  atender a expectativa de demanda para aquela data, de mais de 60 milhões de passageiros/ano, com qualidade superior àquela apresentada atualmente ( 36 milhões em 2013).
O desenvolvimento da tecnologia, que anda a passos largos no setor aéreo, pode vir a permitir um aumento na eficiência das operações aeroportuárias, mantendo um bom nível na qualidade. No entanto, outros aeroportos podem vir a competir seriamente com Guarulhos, em vista de estarem em sítios aeroportuários mais propícios a grandes ampliações, como Viracopos, a menos de 100 km de São Paulo, ou de outros que apresentam forte potencial de crescimento (como o de São José dos Campos), ou, até mesmo, a insurgência de novos aeroportos em futuros cenários abertos à livre instalação destes terminais.

Por Viviane Barbosa, editora-chefe da Revista Embarque, com a colaboração de Jéssica Lemos

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